Ciência coisa boa rubem alves

1649 palavras 7 páginas
CIÊNCIA, COISA BOA...
Rubem Alves

Fernando Pessoa dizia que “pensar é estar doente dos olhos”. No que eu concordo. E até amplio um pouco: “pensar é estar doente do corpo”. O pensamento marca o lugar da enfermidade. Ah! Você duvida? O meu palpite é que neste preciso momento, você não deva estar tendo pensamentos sobre os seus dentes, a menos que um deles esteja doendo. Quando os dentes estão bons não pensamos neles. Como eles fossem inexistentes. O mesmo com os olhos. Você só tomara consciências deles se estiver com problemas oculares, miopia ou outras atrapalhações. Quando os olhos estão bem, agente não pensa neles: eles se tornam transparentes, invisíveis, desconhecidos, e através de sua absoluta transparência e invisibilidade o
…exibir mais conteúdo…
Claro, coisa de imaginação... E o corpo se disciplina para fugir da dor e para ganhar o prazer. Logo depois de passado o evento o corpo, triunfante, trata de se desvencilhar de todo o conhecimento inútil que armazena, esquece quase tudo, sobram uns fragmentos: porque a gora a dor já foi ultrapassada e o prazer já foi alcançado. A gente pensa para que o corpo tenha prazer. Alguns dirão: “Absurdo. É verdade que, em certas situações, o conhecimento tem está função prática. Mas, em outras, não existe nada disto. Na ciência a gente conhece por conhecer, sem que a experiência de conhecimento ofereça qualquer tipo de prazer.” Duvido. O cientista que fica horas, dias, meses, anos em seu laboratório não fica lá por dever. Pode até ser que haja pessoas assim: trabalhar por dever. Só que elas nunca produzirão nada novo. O senso de dever pode ensinar as pessoas a repetir coisas: excelentes técnicos de laboratório, bons funcionários, discípulos de Kant (um homem que desprezava o prazer e achava que, certo mesmo, só as coisas feitas por de3ver). Com o que concordaria o venerável Santo Agostinho que propôs a curiosa teoria, ainda defendida por certas lideranças religiosas, de que o jeito certo de fazer o sexo é “sem prazer, por dever”, burocratas fiéis aos relógios de ponto.

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