Clifford, geertz e roy wagner: consonâncias

2629 palavras 11 páginas
James Clifford escreve em seu “A experiência etnográfica: antropologia e literatura no século XX” um capítulo entitulado “Sobre a autoridade etnográfica”, em que analisa o processo de formação e desintegração da autoridade etnográfica criado no contexto da fundação da disciplina antropológica, como um meio de representar o Outro, cuja escrita – a etnografia – fundou uma autoridade do tipo “você está lá, porque eu estive lá”. Essa autoridade se fundou na ideia da observação participante, como um método em que o pesquisador se faz imerso na experiência de contato prolongado com o Outro, e na tradução desse universo observado-participado, materializado nos diversos paradigmas de escrita, que, segundo Clifford, “encena uma estratégia …exibir mais conteúdo…
Se as referências construídas em campo eram, antes, consideradas como indicações e referências para uma interpretação da cultura, agora as indicações e referências são elas mesmas textos presentes em contextos mais amplos – a cultura -, a serem lidos e interpretados pelo etnógrafo. Essa operação de análise seria caracterizada pela sinédoque, e exigiria “um movimento circular que isola e depois contextualiza um fato ou evento em sua realidade englobante” . O “autor” desse texto seria a própria cultura, um sujeito produtor de textos culturais. E o etnógrafo, um reorganizador de significados dispersos e ambíguos numa “intenção coerente” , num “retrato integrado” . Esse paradigma geral da experiência/interpretação, apesar do esforço do enfoque na interpretação, suscitou diversas críticas, no sentido de que suas abordagens apontavam para uma etnografia de caráter não-dialógico, pois o pesquisador não aparece – o observador privilegiado reproduz o que viu, seja isso estrutura ou texto –, apesar de estar lá, numa relação intersubjetiva em que a experiência depende da “negociação construtiva envolvendo pelo menos dois, e muitas vezes mais, sujeitos conscientes e politicamente significativos” . O Outro aparece, como resultado desse processo, como um só sujeito, estável e unívoco. A partir dessa

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