Página anterior Voltar ao início do trabalhoPágina seguinte 

O Aventurar-se na Própria Caminhada: desvelando histórias de leitura (página 2)

Gislaine da Nóbrega Chaves; Maria Otília Storni

 

2. O método fenomenológico: uma pista para a compreensão das histórias de leitura

As Ops utilizadas por Chaves produziram dados cuja análise é amplamente apoiada no método fenomenológico, que em sua vertente antropológica ressalta o contexto cultural do fenômeno a ser investigado. Segundo Husserl (4), do ponto de vista fenomenológico a realidade é entendida como o dado que emerge da intencionalidade da consciência voltada para o fenômeno. A realidade é o compreendido, o interpretado, o comunicado, ou seja, não há uma única realidade, mas tantas quantas forem as suas interpretações. A fenomenologia ressalta a importância do sujeito pesquisado, que observa a realidade à qual pertence.

Triviños (5) (1987:41-48) define a fenomenologia como o estudo das essências onde se descreve o mundo vivido dos sujeitos – os sujeitos pesquisados descrevem suas experiências com base na expressão do que consideram importante para eles, dentro da temática intencionalmente proposta pelo pesquisador. Essa expressão do essencial depende da consciência do sujeito pesquisador e do sujeito investigado. Desta maneira, a intencionalidade determina o resultado do que ficou da experiência na consciência do sujeito que a viveu. É também o apurado da história, como indica Geertz (6).

Segundo Piaget (apud Triviños, 1987), a intencionalidade faz parte das peculiaridades íntimas dos sujeitos, e neste sentido foram focalizadas por existencialistas como Sartre, Camus, Marcel, Merleau-Ponty, Ricoeur, Heidegger e Scheler e outros, que tentaram interpretar sentimentos como angústia, temor, desesperança etc.

Triviños (1987), apoiado nesses autores, destacou o perigo dos conhecimentos resultantes da consciência de um só sujeito (reducionismo), mostrando que os fenomenologistas têm desejado transformar as formulações subjetivistas redutivas em enunciados verdadeiros para muitos sujeitos: é o que se denomina de intersubjetividade. Aqui se trata de sujeitos grupais coletivos, que são justamente os focalizados pela técnica das Ops retratada neste artigo.

Neste caso, trata-se das interpretações do mundo ou cosmovisões, que surgem intencionalmente na consciência dos sujeitos coletivos enquanto atores, com suas percepções dos fenômenos. Durante as Ops, essas percepções e suas interpretações foram movimentadas e processadas através da interação simbólica (7) e ocorreram entre os participantes que compuseram o sujeito coletivo grupal pesquisado. O contexto cultural dos atores permite que, através de uma linguagem comum entre eles, se estabeleçam questionamentos, debates e busca de significados comuns para explicar a sua realidade. Em outras palavras, a realidade é construída socialmente.

O contexto cultural acima mencionado também foi citado e orientado pelo antropólogo Roberto Cardoso de Oliveira (8). Para ele e os autores que lhe respaldam - Ricoeur, Gadamer, Heidegger, entre outros - a cultura se fixa através da tradição, a saber, continuidade e persistência de hábitos, idéias e valores partilhados por coletividades, sejam elas pequenas comunidades, amplas sociedades ou mesmo nações. A cultura, no seu sentido totalizador, abarca o conjunto das representações (9) de uma dada coletividade.

Como a cultura é construída e portada pelo homem em toda a sua inteireza, abriga igualmente as idéias, sentimentos e valores. Estes compõem suas representações sociais coletivas, que são não só conceitos de entendimento racional, mas também categorias ou conceitos ligados às afetividades, como bem lembrou Lucien Lévi-Brühl, citado por Cardoso de Oliveira (1984a). O homem é então produto e produtor da cultura; o sistema de relações sociais no qual está inserido coloca em movimento as representações sociais e as categorias de entendimento de sua cultura, principalmente ao falar sobre as questões que são importantes para ele. Para ser interpretada, a cultura pode ser tratada então como texto, ou seja, um sistema de conceitos e representações sociais passível de leitura(s), como o que foi feito por Chaves (2000).

Segundo Ricoeur (apud Cardoso de Oliveira, 1984b, p. 4), o texto-cultura é composto por ações significativas que devem ser vistas no interior da linguagem como sistema ou código lingüístico; aqui se refere tanto à língua escrita como a falada, a gestual e outros códigos que compõem o discurso. O discurso é então um evento de linguagem e constitui um campo onde todas as mensagens são trocadas; o discurso não possui somente um mundo, o da pessoa que fala, mas também um outro, o do interlocutor com quem se fala, ou seja, para quem a mensagem foi endereçada.

Esses dois mundos se fundem no horizonte da comunicação e é esse interacionismo simbólico que foi focalizado por Chaves nas Ops – foram as falas e ações significativas das Ops que serviram de texto para a leitura das leituras de mundo das mulheres de Apasa. Por leitura entende-se a decifração, a tradução do discurso que ocorre no momento mesmo da fusão de horizontes dos interlocutores. Note-se que quando o pesquisador penetra no mundo do outro pesquisado, ele não abdica do seu próprio horizonte, ou seja, da sua própria visão de mundo.

Os textos empíricos também resgatam memórias [Halbwachs()], por isso são, em sua maioria, de natureza histórica. Aqui nos encontramos num aparente impasse metodológico, pois os fenomenologistas "puros" não levam em consideração o fator histórico dos fenômenos. Segundo Cardoso de Oliveira (1984a:10), Geertz, Gadamer e Ricoeur, não se pode eliminar o tempo e a posição histórica do pesquisador, porque ela é resgatada como condição do conhecimento. Isto porque, no momento da comunicação e da interação simbólica entre o pesquisador e os sujeitos pesquisados há o resgate das memórias destes, que transforma a história exteriorizada e objetiva em historicidade viva e vivenciada nas consciências dos homens e por certo do pesquisador (Cardoso de Oliveira, 1984b, p. 5).

Explicando melhor, trata-se das mudanças marcadas nas memórias e nas consciências das pessoas focalizadas na pesquisa, e não apenas por ocorrências assinaladas na história oficial dos seus contextos. É o que Geertz chamou de etnografia do pensamento, que é uma tentativa de tomar o diferente, o outro, como objeto de descrição analítica e reflexão interpretativa. Após esse embasamento, apresentar-se-á os elementos teóricos e empíricos das Ops aplicadas por Chaves (2000).

3. Uma construção: a valorização do usuário da informação, de suas experiências e de suas histórias

Embasaram, teoricamente, a oficina de pesquisa no encaminhamento da coleta de dados deste trabalho autores da Ciência da Informação e da Psicologia (10). Em síntese, adotaram-se os seguintes aspectos: 1) o enfoque do sense making – o fazer sentido – abordado na Ciência da Informação por Dervin (1986) no que concerne aos usos, desejos e preferências das colaboradoras pela leitura/(in) formação e pelos suportes da (in)formação; 2) a abordagem de Coll e Martí (s/d), que, com base em Piaget, retomam, nos processos de desenvolvimento cognitivo dos sujeitos, a maturação, a experiência com os objetos e com as pessoas, atuando como elemento coordenador um quarto fator endógeno: o equilíbrio – fator interno, porém não geneticamente programado, cujo sistema cognitivo humano tende a reagir diante de perturbações externas, buscando um melhor equilíbrio. O recurso à memória também embasou e complementou a coleta de dados das oficinas, pois a história individual e coletiva permite recuperar as vivências grupais e as lembranças dos sujeitos (11), como já foi abordado em linhas atrás.

Os indivíduos recorrem à memória para reconstituir o passado por meio de suas lembranças, processo este que ocorre através do acesso aos seus esquemas interiores (experiências individuais) e lembranças do grupo (participação política).

Recorreu-se, portanto, à memória individual das participantes do grupo de mulheres da APASA, associando-a à memória coletiva, uma vez que o quadro que compõe as histórias individuais não está isolado do contexto macrossocial de luta pela Reforma Agrária. Há pontos comuns no agrupamento das cenas de vida de cada uma das mulheres, como por exemplo, a luta pela subsistência como uma das causas do acesso restrito ao saber formal. Já a apreensão do conhecimento entre elas ocorreu por meio de esquemas interiores intrinsecamente relacionados à luta pela terra.

Segundo Halbwachs (1990: 66), "... os quadros coletivos de memória não se resumem em datas, nomes e fórmulas, mas eles representam correntes de pensamento e de experiência onde reencontramos nosso passado porque este foi atravessado por isso tudo..." Sendo assim, pode-se afirmar que as histórias de leitura são únicas e confundem-se com a história dos leitores; seus pontos de partida são fortuitos e suas ordens cronológicas não devem ser as mesmas da história política dos contextos que envolvem os "leitores" (12).

A concepção geral adotada neste trabalho considera a leitura como "...produção de sentidos que o leitor atribui a diferentes textos verbais e não verbais..." (13), ou seja, trata o sujeito como leitor ativo na construção do conhecimento, e o texto como tudo o que pode desencadear processos de significação.

Neste sentido, convém diferenciar a história de vida da história de leitura: a primeira centra-se na análise detalhada da vida das colaboradoras; já esta última, mantém uma relação intrínseca com as práticas de leitura dos indivíduos, bem como à materialidade e aos usos dos suportes de leitura. Este trabalho foi encaminhado, portanto, na perspectiva das histórias de leitura das mulheres de APASA, cuja ênfase temática relaciona-se à luta pela terra e subsistência, através dos recursos à memória seletiva individual e coletiva.

Nas oficinas, procedeu-se a seguinte seqüência: a) coleta de informações sobre suas histórias de leitura e suportes da (in) formação, relacionadas às lutas pela terra e subsistência de cada colaboradora; b) discussão em pequenos grupos; c) reflexão e produção de sentido, através de textos, que eram verbais – expressão oral ou musical – e iconográficos – desenho, vídeo e recortes de revistas –; d) socialização das informações, ou seja, um meio de se coletar dados a partir da experiência com os objetos, com as pessoas e com a socialização dessas experiências.

O foco teórico da subsistência não foi previamente planejado, mas surgiu espontaneamente na oficina intitulada "Experiências de leitura com mulheres...". A partir de então, percebeu-se que as demais subsistências – afetiva, espiritual, intelectual, política, dentre outras – derivam da luta pela terra. Esta foi a aventura em que se encontraram as pistas da fundamentação teórica e analítica desta pesquisa.

Nota

  1. Texto apresentado no V Encontro Nacional de Pesquisadores do Ensino de História (V ENPEH), GTs-Anais Eletrônicos, Grupo de Trabalho 4 – Linguagens Alternativas. Disponível em http://anpuhpb.kit.net/index.htm
  2. Professora da Universidade Federal do Tocantins (UFT); Doutoranda do Programa de Pós-Graduação em Educação (PPGE) da Universidade Federal da Paraíba (UFPB).
  3. Professora Doutora em Ciências Sociais pela PUC/SP, com habilitação em Antropologia e vinculada ao Dep. de Ciências Sociais da Universidade Federal da Paraíba (UFPB).
  4. Apud GIL, Antonio Carlos - PESQUISA SOCIAL. 5a. ed., São Paulo: Atlas, 1999, p. 32-33.
  5. TRIVIÑOS, Augusto N. S. - INTRODUÇÃO À PESQUISA EM CIÊNCIAS SOCIAIS, São Paulo, Atlas, 1987, p. 41-48.
  6. GEERTZ, Clifford - A INTERPRETAÇÃO DAS CULTURAS, Rio de Janeiro, Guanabara/Koogan, 1989.
  7. De acordo com Haguette, toda atividade grupal se baseia no comportamento cooperativo. A associação humana surge somente quando cada ator individual percebe a intenção dos atos dos outros, e então, constrói sua própria resposta baseada naquela intenção: O comportamento humano não é uma questão de resposta direta às atividades dos outros, mas envolve uma resposta às intenções dos outros, ou seja, ao futuro e intencional comportamento dos outros, não somente às suas ações presentes. (Meltzer, 1972, p.6, HAGUETTE, Teresa Maria Frota - METODOLOGIAS QUALITATIVAS NA SOCIOLOGIA, 7a. ed., Petrópolis, Vozes, 2000, p. 27). Essa autora esclarece que essas intenções são transmitidas através de gestos que se tornam simbólicos, isto é, passíveis de serem interpretados.
  8. CARDOSO de OLIVEIRA, Roberto - "Tempo e tradição: interpretando a Antropologia", Brasília, SÉRIE ANTROPOLÓGICA No. 41, 1984a.
    _____ - "Leitura e cultura de uma perspectiva antropológica", Brasília, SÉRIE ANTROPOLÓGICA No. 43, 1984b, p. 1-4.
  9. Representações sociais ou simbólicas são conjuntos de elementos simbólicos articulados como uma estrutura fixa, os discursos, que são construídos pelas pessoas para explicar idéias, situações, tradução de modelos culturais ou mesmo interpretar eventos do dia-a-dia ou do mundo em que vivem. (Moscovici).
  10. HALBWACHS, Maurice. A memória coletiva. São Paulo, Vértice, Ed. Revista dos Tribunais, 1990.
    DERVIN, B.; NILAN, M. Information needs and uses. Annual Review of Information Sciense and Technology, v. 21, nº 2, p. 3-33, 1986.. COLL, C.; MARTÍ, E. Aprendizagem e Desenvolvimento: a concepção genético-cognitiva da aprendizagem. In: Desenvolvimento Psicológico e Educação: Psicologia da Educação. Org. C. Coll, J-Palácios e A. Maschesi: Porto Alegre: Artes Médicas. v. 2.
  11. HALBWACHS, Maurice. A memória coletiva. (Trad.) Laurent Léon Shaffter. 2 ed. São Paulo: Vértice, Editora Revista dos Tribunais, 1990. Cap. 2 – Memória Coletiva e Memória Histórica.
  12. MANGUEL, Alberto. Uma História da Leitura. Trad. Pedro Maia Soares. 3 ed. São Paulo: Companhia das Letras, 1997, p. 36-37.
  13. ABRANTES, Wanda Machado. "Oficina literária: desvelando um olhar feminino". In: Leitura: Teoria & Prática. Revista Semestral da Associação de Leitura do Brasil. Associação de Leitura do Brasil, ano 13, n. 23, jun. 1994.

 

Como citar este artigo: CHAVES, Gislaine da Nóbrega; STORNI, Maria Otília Telles (2002). O Aventurar-se na Própria Caminhada: desvelando histórias de leitura.

Chaves, Gislaine da Nóbrega; Storni, Maria Otília Telles (2002).
mariaotiliats[arroba]yahoo.com.br



 Página anterior Voltar ao início do trabalhoPágina seguinte 



As opiniões expressas em todos os documentos publicados aqui neste site são de responsabilidade exclusiva dos autores e não de Monografias.com. O objetivo de Monografias.com é disponibilizar o conhecimento para toda a sua comunidade. É de responsabilidade de cada leitor o eventual uso que venha a fazer desta informação. Em qualquer caso é obrigatória a citação bibliográfica completa, incluindo o autor e o site Monografias.com.