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Crenças sobre saúde ocular entre professores do sistema público de ensino do Município de São Paulo (página 2)

Edméa Rita Temporini

 

3. Introdução

A crença é uma forma de conhecimento, revestida de convicção, confiança e alto grau de certeza, a respeito de determinado fenômeno ou objeto.6 As crenças em saúde, apesar de, por vezes, não corresponderem ao conhecimento científico, não necessitam comprovação para serem aceitas e incorporadas ao repertório popular. Essa integração ao contexto cultural ocorre em conseqüência da repetição do que se acredita verdadeiro nos contatos individuais e informais ao longo do tempo. O conhecimento popular difunde-se, assim, nos grupos sociais e subculturas.3,10

As crenças, conhecimentos, atitudes, valores, emoções, motivações e condições socioambientais, constituem fatores psicossocioculturais potencialmente determinantes da conduta individual e coletiva em relação à saúde ocular.3,12 Em outras palavras, a forma de acreditar do indivíduo impõe influências restritivas ou impulsionadoras ao seu processo de decisão e ação, no que respeita à promoção da saúde ocular, à prevenção de agravos e à recuperação de distúrbios visuais.13

Concepções errôneas e mitos populares relacionados à visão podem estar presentes em extratos sociais distintos.

Em estudo a respeito de conhecimentos e práticas preventivas em saúde ocular, realizado entre mil pessoas na cidade de Campinas ¾ Brasil, observou-se acentuado desconhecimento, independentemente do nível de instrução e da idade.8

A presença de concepções baseadas no senso comum foi também verificada entre profissionais de diferentes áreas de especialidade e formação, atuantes em hospital universitário. Acreditavam na ocorrência de danos à visão devidos a uso de óculos, a ler em ambiente pouco iluminado ou em veículo em movimento e ao hábito de aproximar-se da televisão.8

O ambiente escolar possibilita o desenvolvimento de ações preventivas no que se refere à promoção da saúde ocular e ao diagnóstico e tratamentos precoces de distúrbios oftalmológicos. O professor, mediante processo educativo, deverá colaborar especificamente para o desenvolvimento do pensamento crítico do escolar quanto à própria saúde, à família e à comunidade.4 Nesse contexto, ressalta-se a sua importância no desenvolvimento de ações educativas e assistenciais de preservação e restauração do sistema visual de escolares. A detecção precoce, solução ou minimização de distúrbios oftalmológicos de crianças em idade escolar podem ser assim alcançadas, prevenindo conseqüências adversas para o desenvolvimento intelectual, psicológico e social do ser humano.11,15 Entretanto, para exercer essas tarefas, o professor deve deter conhecimentos corretos em saúde ocular, desprovidos de crendices populares.

Faz-se mister, portanto, identificar a existência de crenças relacionadas à visão entre professores para poder atuar com eficácia na preparação desses profissionais e dar origem à transformação em novos saberes e à adoção de conduta acertada.3 A realização de pesquisas relativas a modos de pensar, sentir e agir podem direcionar apropriadamente o planejamento de ações e programas preventivos em oftalmologia.12,13

A análise da realidade para conhecimento dos fatores e situações estruturais que interferem na saúde dos grupos populacionais constitui uma das atribuições da área de educação em saúde.5

Nesse enfoque, o presente estudo foi realizado com o propósito de verificar crenças de professores relacionadas ao uso de óculos, uso intensivo dos olhos e danos para a visão decorrentes da leitura realizada em diferentes circunstâncias. Teve a finalidade de obter informações para subsidiar programa de intervenção em saúde ocular destinado a professores do ensino fundamental.

4. Métodos

Foi realizado levantamento de dados entre professores de primeira série do ensino fundamental, nas escolas do sistema público situadas na região sul do Município de São Paulo (SP ¾ Brasil). Considerando esse critério geográfico, a população foi composta pela totalidade desses professores (545), distribuídos em 120 unidades escolares.

Foram investigadas crenças relacionadas ao uso de óculos pela criança, danos à visão decorrentes da leitura em veículos, de assistir televisão a menos de dois metros do aparelho televisor ou em ambiente escurecido e conseqüências do uso intensivo da visão.

Elaborou-se um questionário, com base em estudo exploratório, que permitiu conhecer previamente a realidade a partir das informações fornecidas por professores que detinham características semelhantes às da população de estudo.9 Nessas entrevistas, foi possível identificar termos empregados por professores em relação a distúrbios oftalmológicos e conhecer o repertório popular relacionado à saúde ocular. Observou-se que determinados termos técnicos de oftalmologia (miopia, astigmatismo, hipermetropia) eram conhecidos pelos professores. Por essa razão foram utilizados no questionário definitivo. Após a análise dessas informações, foram selecionadas as mais relevantes e freqüentes para compor as questões do instrumento de medida.

Optou-se por construir um questionário auto-aplicável, considerando critérios de viabilidade, acesso e características da população-alvo. O instrumento foi submetido a um teste prévio, tendo-se procedido a algumas alterações. Submetido novamente a outros professores, não recebeu críticas ou sugestões, sendo considerado o instrumento definitivo da pesquisa.

A coleta de dados contou com o auxílio dos diretores das unidades de ensino, solicitado em reunião preparatória de sensibilização sobre a importância da pesquisa. Anexou-se carta introdutória a cada instrumento, informando sobre os objetivos da pesquisa e solicitando o preenchimento individual. Foram garantidos o sigilo e anonimato das informações. Coube ao diretor de cada unidade de ensino, já sensibilizado, a responsabilidade pela distribuição e recolhimento dos questionários preenchidos, garantindo, assim, a ausência de perda dos questionários. O envolvimento de todos os docentes foi surpreendente, fato que leva a supor que tenham percebido a importância de suas informações e participação na proposição e elaboração de ações programáticas em saúde ocular a serem desenvolvidas nas escolas. Os dados foram coletados em setembro de 1997.

Na análise dos dados referentes às escalas que contêm a resposta "não sabe", optou-se por apresentar os valores relativos de duas formas, incluindo e excluindo essa categoria. Com a inclusão, que corresponde à forma clássica de apresentação tabular, pretendeu-se apresentar a realidade como foi observada, de forma integral. Com a exclusão, pretendeu-se alcançar uma interpretação mais condizente com a realidade. Como a resposta "não sabe" impede que a realidade seja representada quantitativamente por seus valores verdadeiros, optou-se por separá-la das demais respostas na análise dos resultados.

Por se tratar de questionário auto-aplicado, o n das tabelas sofre algumas variações, em função das respostas fornecidas. Foram determinados intervalos de confiança de 95%.

5. Resultados

A população de 545 professores tinha idades entre 20 e 69 anos, média de 37,8 anos, exercendo funções de magistério em média há 13,2 anos. A maioria (67,4%) não recebeu orientação sobre o sistema visual ou programa de saúde ocular na escola nos últimos três anos.

Quase a totalidade dos professores (99,4%) acreditava que, uma vez indicado o uso de óculos para a criança escolar, esse uso deve ser constante (Tabela 1). O uso intensivo dos olhos, ou seja, o desempenho prolongado de atividades que exijam o uso da visão, foi considerado fator agravante de distúrbios oftalmológicos pré-existentes (62,3%); ademais, 25,5% acreditavam ser o esforço visual causa de problemas de visão (Tabela 2).

As conseqüências danosas à visão decorrentes do hábito de ver televisão à distância reduzida (a menos de dois metros) foram admitidas por 95% dos professores (Tabela 3). O fato de ver televisão em ambiente não iluminado foi considerado causa de vícios de refração (12,2%), de estrabismo (1,2%) ou de irritação ocular (59,9%); note-se que 36,5% dos respondentes manifestaram desconhecimento a esse respeito (Tabela 4).

Para a maioria dos professores, a leitura realizada em veículos em movimento pode dar causa a problemas de visão (45,6%) ou agravar distúrbios existentes (19,2%) (Tabela 5).

6. Discussão

A saúde e a qualidade de vida dependem do inter-relacionamento de múltiplos fatores psicossocioculturais e do ambiente, que predispõem, possibilitam ou reforçam comportamentos do indivíduo.6 O conhecimento em relação à saúde ocular constitui um desses fatores, influindo na importância que as pessoas atribuem à visão e aos cuidados para preservá-la.10

O professor detém a tarefa precípua de transmissão de conhecimentos na escola, que pode incluir a orientação em saúde ocular para alunos e seus familiares. Para realização dessa atividade, é necessário preparo específico que permita aos docentes a aquisição de conhecimentos desprovidos de distorções provenientes de mitos aceitos como verdadeiros.

Entre os professores que integraram o presente estudo, a maioria declarou não ter sido orientada sobre programas de saúde ocular na escola nos últimos três anos. É provável que, além de não terem participado de treinamento ou orientação, se isso ocorreu anteriormente, aspectos relacionados a mitos e crenças populares referentes ao sistema visual não tivessem sido incluídos nessa orientação. Pode-se supor, em conseqüência, a origem leiga de algumas de suas concepções, provenientes do meio sociocultural.

É o que se depreende da declaração a respeito da necessidade do uso constante de óculos pelo escolar, aceita por quase todos os respondentes (Tabela 1). Admite-se, entretanto, que tal prática nem sempre se faz necessária; por exemplo, as crianças que apresentam até quatro graus de miopia necessitam usar óculos principalmente para atividades que exijam visão à distância, porém podem deles prescindir em atividades de escrita e leitura próximas. O astigmatismo e a hipermetropia por vezes requerem o uso de óculos apenas aos esforços visuais tanto para longe quanto para perto.1

É compreensível o engano a esse respeito, manifestado por professores, se considerado o ponto de vista leigo referente à necessidade do uso permanente de óculos para o indivíduo enxergar melhor, crença comum em meio escolar. Essa resposta mostra, apenas, a informação insuficiente de professores, que pode conduzir a uma ação de "policiamento" do uso de óculos em classe.

Outra concepção bastante difundida diz respeito à necessidade de poupar os olhos de esforço visual, presente nos resultados da Tabela 2. Os professores responsabilizam o uso intensivo dos olhos pela origem ou agravamento de problemas visuais, o que corresponde a um conhecimento errôneo.

Resultados semelhantes foram observados por Temporini et al14, em estudo realizado em população adulta de portadores de catarata, mostrando que 43,1% atribuíram sua deficiência visual ao uso excessivo dos olhos em atividades profissionais. Ressaltaram ainda, esses autores, ser prática comum, entre portadores de distúrbios oculares evitar esforços visuais para preservar os olhos.

Essa forma de pensar associa-se ao mito de que "criança que estuda demais acaba tendo de usar óculos, porque a leitura enfraquece a visão". O exercício da função visual, ao invés de acarretar prejuízo aos olhos, favorece o desenvolvimento da visão em decorrência do estímulo.7 Em tratamento de pacientes portadores de visão subnormal, tem sido enfatizada a necessidade de realizarem o máximo esforço visual, a fim de desenvolver a capacidade de interpretação das imagens pouco nítidas que se formam na retina.2

Outras crenças populares foram identificadas, no que respeita ao hábito de ver televisão. O fato de situar-se a menos de dois metros do aparelho televisor e em ambiente escuro para assistir a um programa foi percebido como causa de problemas de visão, atribuindo à distância reduzida o maior dano. Trata-se de crença infundada, pois os modernos aparelhos televisores não emitem radiação nociva ao sistema visual. Recomenda-se, contudo, visando ao conforto, manter distância mínima de um metro do aparelho de televisão. Na realidade, em vez da distância da televisão, o prejuízo advém quando a criança passa muitas horas em frente ao aparelho de televisão; essa situação passiva prolongada impede o desenvolvimento de outras atividades estimuladoras do raciocínio e da destreza corporal da criança.1 Por outro lado, a ausência de iluminação no ambiente para assistir à televisão não afeta o sistema visual, nem provoca o aparecimento de erros de refração. Na verdade, o contraste da acentuada luminosidade proveniente da imagem projetada pelo aparelho com a ausência de iluminação no ambiente poderá, após certo período, provocar cansaço visual. Fato que também ocorre quando se lê em ambiente mal iluminado.7

Em um estudo realizado por Rocha et al10 entre profissionais da área da saúde, atuantes em hospital universitário da cidade de Campinas, foram observados resultados semelhantes. O hábito de ver televisão próximo à tela foi reconhecido como causa de diminuição da visão por 56% dos enfermeiros, 64,3% dos auxiliares de enfermagem e 50% dos auxiliares administrativos.

O mito de que a leitura realizada em veículo em movimento prejudica os olhos mostrou-se bastante difundido entre os professores (Tabela 5). A aceitação dessa falácia registrou-se também entre outros grupos de profissionais, no estudo de Rocha et al.10 A leitura em veículo em movimento pode produzir apenas algum desconforto, cansaço visual mais rápido ou enjôo, devido ao constante esforço de adaptação dos olhos. Esses sintomas não ocorrem em todos os indivíduos, nem representam dano para a visão. A crença de que esse procedimento produz conseqüências danosas pode resultar na limitação do lazer decorrente da leitura e do aproveitamento do tempo dispendidoem trânsito ou em viagens para atividades de aprendizagem.

É possível que as crenças populares identificadas no presente estudo sejam divulgadas por professores, reconhecidamente indivíduos formadores de opinião. A sua incorporação como "verdades", além de impedir a aquisição de conhecimentos acertados, pode resultar em comportamentos indesejáveis em relação à saúde do sistema visual entre professores, alunos e pais. Ressalta-se que, por vezes, o escolar torna-se veículo de informações obtidas na escola para seu núcleo familiar. Esse aspecto mereceria estudos posteriores para seu aclaramento.

Os fatos observados evidenciam a necessidade de introduzir a orientação referente a crenças populares em visão nos programas e atividades de treinamento do pessoal docente, para o desenvolvimento de ações de oftalmologia sanitária nas escolas de primeiro grau.

7. Referências

1. Alves MR, Kara-José N. O olho e a visão: o que fazer pela saúde ocular de nossas crianças. São Paulo (SP): Vozes; 1996.

2. Barbosa NLM, Kara-José N. Leucocorias, trauma oculares, mitos em oftalmologia: glossário. Clín Pediátr 1980; 5:23-6.

3. Briceño-Léon R. Siete tesis sobre la educación sanitaria para la participación comunitária. Cad Saúde Pública 1996;12:7-30.

4. Focesi E. Educação em saúde na escola: o papel do professor. Rev Bras Saúde Esc 1990;1: 4-11.

5. Focesi E. Uma nova visão de saúde escolar e educação em saúde na escola. Rev Bras Saúde Esc 1992;2:19-21.

6. Green LW, Kreuter MW. Health promotion planning: an educational and environmental approach. 2nd ed. Mountain View: Mayfield; 1991.

7. Kara-José N, Oliveira RC. Mitos e verdades: olhos. São Paulo (SP): Contexto; 1997.

8. Kara-José N, Sabba H C, Cartocci AA, Temporini ER, Braga ACA, Shimoda GA, et al. Conhecimentos e práticas em saúde ocular de 1000 pessoas da cidade de Campinas (SP). Arq Bras Oftalmol 1985;48:160-4.         [ Lilacs ]

9. Piovesan A, Temporini ER. Pesquisa exploratória: procedimento metodológico para o estudo de fatores humanos no campo da saúde pública. Rev Saúde Pública 1995;29:318-25.

10. Rocha JCP, Gondim EL, Braga FTC, Dantas FJ, Temporini ER, Kara-José N. Ocular health myths among a hospital staff. Ophthalmic Epidemiol 1997;4:107-13.         [ Medline ]

11. Temporini ER. Ação preventiva em problemas visuais de escolares. Rev Saúde Pública 1984;18:259-62.

12. Temporini ER. Pesquisa de oftalmologia em saúde pública: considerações metodológicas sobre fatores humanos. Arq Bras Oftalmol 1991;54:279-81.         [ Lilacs ]

13. Temporini ER, Kara-José N. Níveis de prevenção de problemas oftalmológicos: propostas de investigação. Arq Bras Oftalmol 1995;58:189-94.         [ Lilacs ]

14. Temporini ER, Kara-José N, Kara-José JRN. Catarata senil: características e percepções de pacientes atendidos em projeto comunitário de reabilitação visual. Arq Bras Oftalmol 1997;60:79-83.         [ Lilacs ]

15. World Health Organization. Regional Office for Europe. Social and behavioural aspects of comprehensive eye care: report. Brussels; 1984.

* Baseado na dissertação de mestrado apresentada à Faculdade de Saúde Pública da Universidade de São Paulo (USP), em 1998. Apresentado ao XIII Congresso de Prevenção da Cegueira e Reabilitação Visual, Rio de Janeiro, 1998.

Jane de Eston Armonda e Edméa Rita Temporinib - ertempor[arroba]usp.br

aFaculdade de Medicina da Universidade de Santo Amaro. São Paulo, SP, Brasil. bDepartamento de Prática de Saúde Pública da Faculdade de Saúde Pública da Universidade de São Paulo. São Paulo, SP, Brasil.



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