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Variabilidade genética em progênies jovens de açaizeiro (página 2)

João Tomé de Farias Neto, Marcos Deon Vilela de Resende

2. MATERIAL E MÉTODOS

O experimento envolveu 25 progênies de polinização aberta de açaizeiro, e foi instalado em março de 2003, na base física de Tomé-Açu, município de Tomé-Açu, PA, pertencentes ao Centro de Pesquisa Agroflorestal da Amazônia Oriental. As progênies são oriundas de coletas realizadas nos municípios de Afuá e Chaves, PA, cujos critérios utilizados foram: número de cachos/planta, tamanho de cacho, diâmetro do fuste, frutos violáceos e presença de perfilhamento. A área do plantio apresenta topografia plana, cobertura com vegetação de capoeira, clima tipo Ami, segundo a classificação de Köppen, com temperatura média anual de 27ºC, umidade média relativa do ar de 82% e precipitação média anual de 2.700 mm. O solo é do tipo Latossolo Amarelo, textura média e de baixa fertilidade.

As progênies foram avaliadas em experimento delineado em látice 5 x 5 com duas repetições, parcelas lineares de cinco plantas, espaçadas em 5,0 m x 5,0 m.

A adubação no primeiro ano, constou de 100 gramas de superfosfato triplo/cova e em cobertura 180 gramas de uréia e 60 gramas de cloreto de potássio parcelada em três vezes. As progênies foram avaliadas doze meses após o plantio, coletando-se dados de altura da planta- AP (medida do solo até o ponto de inserção da folha guia e a primeira folha expandida), diâmetro do fuste à altura do colo (DFC), número de folhas vivas (NFV) e número de perfilhos (NP), conforme metodologia descrita por Clement & Bovi (2000) para pupunha. Para efeito da análise de variância, os valores dos caracteres NFV e NP foram transformados para , conforme Steel & Torrie (1980).

As análises de variância foram feitas para cada característica, segundo método proposto por Cochran & Cox (1957) para látices, com todos os efeitos considerados aleatórios (exceto a média), utilizando o programa GENES, desenvolvido por Cruz (1997) o qual emprega os estimadores dos parâmetros genéticos e fenotípicos apresentados por Vencovsky & Barriga (1992).

3. RESULTADOS E DISCUSSÃO

Os resultados da análise de variância para os quatro caracteres encontram-se na Tabela 1. Os caracteres diâmetro e número de perfilhos tiveram diferenças significativas em nível de 5% de probabilidade.

Aos 12 meses após o plantio 23,4% das plantas não emitiram perfilhos, 29,2 % emitiram um perfilho, 27,0 % dois, 15,5 % três, 3,98 % quatro e 0,88% cinco perfilhos. O ideotipo do açaizeiro para produção de frutos deve apresentar perfilhos com diferenciação precoce e acima de três perfilhos, pois para o manejo adequado da cultura no espaçamento adotado (5,0 m x 5,0 m) preconiza-se a existência de quatro estipes/ touceira por possibilitar aumento da produtividade de frutos e a exploração contínua das touceiras (OHASHI & KAGEYAMA, 2004). Considerando que 15,5% das plantas apresentaram no primeiro ano pelo menos três perfilhos torna a população promissora para a prática da seleção.

Os coeficientes de variação experimental estimados foram semelhantes aos resultados relatados para os caracteres em estudo. Em açaizeiro, Ohashi & Kageyama (2004), aos 24 meses após plantio, estimaram valores dos coeficientes de variação para altura e diâmetro semelhantes aos obtidos nesse estudo de 14,24% e 14,41%, respectivamente. O maior coeficiente de variação experimental obtido foi o apresentado pelo caráter número de perfilhos, cuja estimativa foi de 35,11%. Em pupunheira (Bactris gasipaes), aos 12 meses pós-plantio, Farias Neto & Bianchetti (2001) obtiveram valor semelhante de 29,06% para número de perfilhos.

Os valores médios e intervalo de variação das 25 progênies para os caracteres altura, diâmetro do fuste, número de folhas vivas e número de perfilhos são apresentados na Tabela 2. Os dados de altura, diâmetro do fuste e número de folhas vivas obtidos por plantas dentro das progênies no limite superior do intervalo de variação ilustram o potencial genético dessa população para a seleção de progênies superiores para produção de fruto, visto que esses caracteres são associados positivamente (OLIVEIRA et al., 2000). Em pupunheira foram detectados associações positivas entre esses caracteres com produção de palmito (BOVI et al., 1992; CLEMENT et al., 1987; FARIAS NETO, 1999a, b; NOGUEIRA et al., 2004).

Os valores médios de altura (62,0 cm), diâmetro (6,5 cm) e número de folhas vivas (7,6) obtidos no presente estudo em terra firme, foram semelhantes aos obtidos por Nogueira (2004), estudando uma população de açaizeiro aos doze meses após plantio em condições de igapó, na qual obteve 60 centímetros de altura, aproximadamente seis centímetros de diâmetro, oito e sete folhas/planta.

As correlações entre caracteres são úteis para predizer a influência da seleção de um caráter sobre a alteração na média do outro. A correlação fenotípica entre diâmetro do fuste e número de perfilhos foi negativa (-0,033), quase nula. Portanto, a seleção de plantas com diâmetro grande e maior número de perfilhos é bastante dificultada.

A magnitude dos ganhos por seleção e sua facilidade de obtenção podem ser preditas pelas estimativas dos parâmetros genéticos apresentados na Tabela 3. Na obtenção dessas estimativas considerou-se a relação de meios-irmãos nas progênies envolvidas, e considerou-se desprezível a ocorrência de endogamia na população-base em estudo, condição imprescindível preconizada por Vencovsky (1978).

Ganhos elevados são obtidos quando se dispõe de altas estimativas de herdabilidade e a relação entre os coeficientes de variação genética (CVg%) e experimental (CVe%) é superior a unidade. No presente trabalho, constatou-se que, por suas maiores herdabilidades, haverá maiores possibilidades de ganhos para número de perfilhos (62,42%) seguido do diâmetro do fuste à altura do colo (60,63%).

Quanto aos coeficientes de variação genética e a relação entre os coeficientes de variação genética e ambiental, os valores apresentaram a mesma tendência da herdabilidade e revelam alta proporção de variação genética, ou seja, boa condição para se selecionar genótipos superiores, conforme sugere Vencovsky (1978). O coeficiente de variação genética estimado para altura do fuste de 6,19% foi próximo ao encontrado por Ohashi & Kageyama (2004) de 5,29% aos 24 meses após o plantio.

4. CONCLUSÃO

A população apresentou variações genéticas significativas entre progênies para os caracteres diâmetro do fuste à altura do colo e número de perfilhos, indicando potencial genético a ser explorado de maneira efetiva em programa de melhoramento.

5. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

BOVI, M. L. A.; SAES, L. A.; GODOY JÚNIOR, G. Correlações fenotípicas entre caracteres não destrutíveis e palmito em pupunheiras. Turrialba, San Jose, v. 42, n. 3, p. 382-390, 1992.

CALZAVARA, B. B. G. Importância do açaizeiro (Euterpe oleracea Mart.) como produtor de frutos e palmito para o Estado do Pará. In: ENCONTRO NACIONAL DE PESQUISADORES EM PALMITO, 1., 1987, Curitiba. Anais... Curitiba: EMBRAPA-CNPF, 1988. p. 249-259.

CLEMENT, C. R. Domesticated palms. Principes, Lawrence, v. 36, n. 2, p. 70-78, 1992.

CLEMENT, C. R.; BOVI, M. L. A. Padronização de medidas de crescimento e produção em experimentos com pupunheira para palmito. Acta Amazônica, Manaus, v. 30, n. 3, p. 349-362, 2000.

CLEMENT, C. R.; CHAVES, F. W. B.; GOMES, J. B. M. Considerações sobre a pupunheira (Bactris gasipaes H.B.K.) como produtora de palmito. In: ENCONTRO NACIONAL DE PESQUISADORES EM PALMITO, 1., 1987, Curitiba. Anais... Curitiba: EMBRAPA-CNPF, 1987. p. 225- 247. (Embrapa-CNPF, Documentos, 19).

COCHRAN, W. G.; COX, G. M. Exprimental designs. 2. ed. New York: J. Wiley, 1957. 661 p.

CRUZ, C. D. Genes: aplicativo computacional em genética e estatística. Viçosa: UFV, 1997. 442 p.

FARIAS NETO, J. T. de. Variabilidade genética em progênies de meios-irmãos de pupunheira (Bactris gasipaes, Kunth). Londrina: FOREST, 1999a. CD-ROM.

FARIAS NETO, J. T. de. Estimativas de parâmetros genéticos em progênies de meios-irmãos de pupunheira. Boletim de Pesquisa Florestal, Colombo, v. 39, p. 109-117, 1999b.

FARIAS NETO, J. T.; BIANCHETTI, A. Estudo do potencial genético de duas populações de pupunheira (Bactris gasipaes Kunth, Palmae). Revista Árvore, Viçosa, v. 25, n. 4, p. 413-417, 2001.

João Tomé de Farias Neto1, Maria do Socorro Padilha de Oliveira1,
Antônio Agostinho Muller1, Oscar Lameira Nogueira1, Dinah Francielna dos Santos Pereira Anaissi2
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1. Pesquisadores da Embrapa Amazônia Oriental Trav. Dr. Enéas Pinheiro s/n Cx.P. 48 66095-100 Belém, PA
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2. Bolsista do convênio PIBIC/CNPq//Embrapa Amazônia Oriental Trav. Dr. Enéas Pinheiro s/n Cx.P. 48 66095-100 Belém, PA. (recebido: 8 de julho de 2004; aceito: 18 de outubro de 2005).



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