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Oficinas psicopedagógicas como estratégias de formação: a arte da aprendizagem ou aprendizagem em ar (página 2)

João Beauclair

I - A arte da aprendizagem ou aprendizagem em arte: refazendo um percurso de uma motivadora experiência

"Quando o coração quer,
a mente encontro o caminho."
Anônimo

Sobre aprendizagem em Arte fundamental é levar o  nosso olhar para os caminhos da subjetividade humana, pois aprendizagem é uma relação que estabelece elos de ligação entre quem exerce o papel de ensinante e quem vivencia o papel de aprendente.  

Como tema essencial e gerador de novos horizontes necessitamos, sempre, continuar a busca para compreender, com cada vez mais clareza, os processos de aprendizagem.

Nossas auto-referências e autonomias de pensar e a  circularidade de diferentes conceitos nos demonstram que nossas potencialidades são infinitas e neste sentido, lançar novas idéias, provisórias e em movimento, devem dar continuidade ao nosso permanente  pensar e refletir sobre o que é aprender,  para todos nós enquanto sujeitos viventes.

Acredito que resignificar nossos campos de sentido enquanto seres aprendentes e ensinantes e buscar vincular este processo aos estudos sobre nossas distintas práticas, enquanto profissionais e humanos, é concreta possibilidade de encontro e/ou  reencontro com nossos próprios significados e sentidos.

A reflexão e o olhar atento nos leva a reconstituição do vivido e  gera múltiplas possibilidades de revermos nossas próprias identidades enquanto sujeitos e nossas vinculações sistêmicas com os outros, que só podem ocorrer na prática da interatividade, conjunto de relações simultâneas onde realidade, vontade, poder e  desejo se mesclam e re-criam a organização de nossos pensares, de nossos sentimentos.

A arte da Aprendizagem ou a Aprendizagem em Arte, pode refazer um percurso da motivadora experiência humana do próprio viver: em nossa histórica trajetória, desde os primórdios, é no aprender e na arte que concentramos nossos esforços maiores para a sobrevivência e esta é a maior herança que carregamos: a herança cultural de toda a humanidade.

Elementos essenciais para compreendermos isso não nos faltam: hoje a urgência de encontrarmos outros modelos para nossas condutas e ações está presente na necessidade da construção de uma nova Ética, de um novo Humanismo e, principalmente na possibilidade de enquanto seres que vivem em comunhão, resgatarmos valores de afabilidade, mansidão e doçura nas relações que estabelecemos com o mundo, com os outros, com a Vida em si mesma.

A perspectiva criada a partir de nossas vivências deve estar voltada para a redescoberta, para a criação e recriação, para a construção, permanente, de outros caminhos para conviver com amorosidade nos espaços do sentir, do fazer, do estar junto  com o outro, em processos de ensinagem. Tenho afirmado, inclusive em outros escritos e espaços, que é nas nossas interações que residem à melhoria das condições próprias ao aprender, desde que a compreensão para as distintas particularidades que nos fazem humanos seja tarefa consciente e exercício contínuo.

Paulo Freire, mestre essencial neste sentido, nos ensina que quem ensina aprende ao ensinar e quem aprende ensina ao aprender. Existe beleza e arte maior do que está? Saber que neste processo conhecer é conhecer-se e reconhecer-se na parceria ad infinitum  com os outros?

A constituição de nossas autorias de pensamento, em nossas aprendizagens cotidianas, deve estar pautada no necessário e fundamental desejo do construir vínculos  positivos entre o ser que aprende, o ser que ensina e os múltiplos  processos de cognição emergentes deste encontro.

A criatividade, a busca por novas visões à construção de nossas subjetividades enquanto seres em aprendências perene, nos condiciona ao desafio de configurar/reconfiguar nossas competências e habilidades para interação com a humana diversidade que convivemos cotidianamente e com as infinitas tensões que caracterizam nossa contemporaneidade.

Isto me faz continuar a afirmar que fundamental é a proposta de perceber a  aprendizagem como essencial, como campo de infinitas possibilidades de construção de novos pensares e de novas maneiras de perceber e  sentir,  de  cuidar de cada um de nós, sem esquecermos que somos seres essencialmente vinculados aos processos de ensinagem permanentes: somos seres humanos porque somos seres aprendentes.

II- Oficinas Psicopedagógicas: breves comentários sobre estratégias de formação

"Viver e não ter a vergonha de ser feliz
cantar e cantar e cantar
a beleza de ser um
eterno aprendiz."
Gonzaguinha

Em artigo anterior afirmei ser fundamental, em processos de formação, observarmos que ensinantes e aprendentes vão    

"autorizando-se mutuamente, sendo autores dos pensamentos que constroem, movidos por seus desejos, em busca de seus processos e movimentos de autonomia, indo além do olhar do/a outro/a para reconhecer a autoria de seu pensamento e produção. Importante é perceber que "ensinagem" e "aprendência" são processos de permissão a autoridade de pensamentos, como movimentos diferenciados e reconhecedores da alteridade."  

Na experiência vivenciada, partindo dos pressupostos das teorias interacionistas de Piaget e Vygotsky, e suas implicações educacionais, discutimos  como elementos fundamentais nos processos de ensinagem podem dar novos sentidos às nossas próprias concepções de aprendizagem e desenvolvimento, que tantas vezes estão fragmentadas por demais nas práticas educacionais e sociais.

Enquanto estratégia de formação, as oficinas psicopedagógicas permitem a vivência de aspectos teóricos sócio-interacionistas e construtivistas de um modo mais abrangente, onde ensinantes e aprendentes sejam mediadores coletivos nos movimentos de processar, produzir e desenvolver conhecimento.

A partir da formação de grupos operativos, de interações criativas, de vivências com diferentes materiais, com a expressão corporal e a música, com a dança e a produção textual e plástica, a complexidade inerente ao humano aprender se faz numa outra perspectiva, onde AULA seja sinônimo de prazer, seja convívio da paixão, seja arte do cotidiano, seja espaço de re-descoberta; aprender ocorre a partir de movimentos diários, constantes e dinâmicos,  o sujeito consigo mesmo, o sujeito com o outro, o sujeito com o mundo: sempre, e eternamente, haverá algo a ser aprendido e  ensinado.

Aprender e ensinar são processos  vitais: é busca constante, é conquista, encantamento, é o que nos mantêm vivos, jovens, crianças. É o universo da relação entre a magia da vida e a vida de cada sujeito, é o espaçotempo  da elaboração, é o imã do desenvolver de nossa poética existencial.

Nas oficinas psicopedagógicas como estratégias de formação são compartilhadas pela busca, pelo sonho do crescimento diário, pelo desejo de conhecer o novo, pela curiosidade do despertar, a cada dia, para um mundo cheio de novas surpresas. O que se propõe é um novo olhar, menos ativista, que em nossa cotidianidade é  demasiadamente apressado, sem tempo de reflexão e com a ausência da sensação de estar no aqui e no agora.  

O desafio é o de aprender, a partir das tantas informações disponíveis nesta sociedade do conhecimento, a lançar novos olhares às perspectivas do nosso século XXI, que torna o mundo cada vez mais interdependente, inter-relacionado.

E o resgate que a Arte pode permitir é o de ter a função de formação de subjetividades dotadas de competências solidárias, de sensibilidade, de responsabilidade, onde a interação  seja permanente busca de sentido para nossas existências. Para tal resgate, a perene necessidade de continuarmos a aprender faz com que tenhamos a alegria de sermos eternos aprendizes, embasando a metodologia de oficinas psicopedagógicas na proposição da UNESCO com os quatro pilares para a Educação do Século XXI: a aprender a conhecer, o aprender a fazer, o aprender a viver juntos, e o aprender a ser.

III- Criando novos sentidos e significados:  estarmos juntos fazendo uma nova prática de  Educação.

"Caminhante, não há caminho,
o caminho se faz ao caminhar."
Antonio Machado, poeta espanhol

Reflexões sobre a necessidade de criar novos sentidos e significados para o estarmos juntos fazendo Educação, rompendo com práticas cristalizadas é essencial na práxis do psicopedagogo, do arte-educador, enfim, dos que atuam numa perspectiva  vygotskiana.  

Para Vygotsky, a aprendizagem é um processo profundamente social e, por isso, o desafio é o de contextualizar saberes, conhecimentos, informações, é reinterpretar o que se vive e o que vê;  é registrar o processo vivenciado, é apropriar-se da experiência, é saber que há poder, força, na arte de transformar, na arte do empoderar-se. Refletir sobre a necessidade de revermos estes nossos  movimentos e  exercícios, de avaliarmos/reavaliarmos a capacidade que todos nós temos de, uns com os outros, aprendermos a conhecer a partir da investigação e da descoberta, é elemento chave para gerar a alegria de ser um eterno aprendiz .

A meu entender, novos sentidos e significados ao  estarmos juntos fazendo Educação só serão possíveis se  realmente criarmos um espaçotempo de esforço, determinação e encorajamento para que efetivamente ocorra o rompimento de práticas cristalizadas no fazer pedagógico. Atuar neste sentido é estar determinantemente vinculado ao campo da inovação, da mudança, da organização de uma outra forma de pensar e ver a realidade, de organizar e conduzir o próprio destino, lutando, permanentemente, para crescer, conhecer, construir, criar, enfim.

Assim, fica expresso nesta escritura o desafio de tornar possível o encontro com outros "eus". O aspecto fundamental nos processos de interação social e nas práticas de comunicação interpessoal na metodologia das oficinas psicopedagógicas é ressaltar a essencialidade do saber cuidar, onde o nosso papel é o de saber que os aspectos motivacionais desempenham importância central para que a ‘ensinagem’ seja significativa e que encontre efetiva funcionalidade em seu exercício.  

Isto porque ensinar e aprender é uma necessidade humana e aprender a conhecer, aprender a fazer, aprender a viver juntos, aprender a ser e aprender a amar só é possível em comunhão. E estar em comunhão é impulsionar-se e pautar-se pela "procura de possíveis saídas às nossas inteligências ainda aprisionadas, nos desafiando aos processos de mudança permanente, produtiva, continuada e em harmonia com nossa essência humana".  

E o desejo é esse: da mediação ao desejo, do desejo a mediação, em processo permanente, onde nossas capacidades (infinitas que são)  nos levem construção de um sonho: não negligenciar as oportunidades de aprendizagem e saber que desejar é ousar. O gênio existe, adormecido, em cada um de nós: despertá-lo também é nossa tarefa e ousadia. Aprender a amar, idem.

Referências bibliográficas:

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Publicado originalmente na Revista Psicologia Brasil, ano 2, número 14, outubro de 2004

 

Prof. João Beauclair
Psicopedagogo, Arte-educador, Mestre em Educação

joaobeauclair[arroba]yahoo.com.br

Homepage: http://www.profjoaobeauclair.net



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