Erros teóricos no Manual Escolar «Filosofia-10º ano» de Luís Rodrigues



  1. Relativismo não é «há muitas interpretações sobre o mesmo tema, todas valem o mesmo»
  2. O subjectivismo ético não é auto-refutante
  3. A filosofia é, em parte, de natureza empírica, e possui métodos formais para resolver problemas
  4. O libertismo não exclui, em regra, o determinismo
  5. Bibliografia

O Manual português «Filosofia-10º ano», de Luís Rodrigues, apresenta diversas incorrecções teóricas que vamos explicitar. É óbvio que se pode leccionar apoiado nos seus textos, desde que se saiba mostrar as suas insuficiências, os seus paralogismos.

RELATIVISMO NÃO É «HÁ MUITAS INTERPRETAÇÕES SOBRE O MESMO TEMA, TODAS VALEM O MESMO»

«Segundo o RMC (Relativismo Moral Cultural) , cada cultura vê a realidade com óculos de diferentes cores e nenhuma tem o direito de dizer que a sua visão é a única apropriada. Quando se trata de práticas morais de outras sociedades, devemos tentar os óculos que os membros dessas culturas usam.»

(Luís Rodrigues, Filosofia 10º ano, volume I, consultor Luís Gottschalk, Plátano Editora).

Esta definição de relativismo é incorrecta: relativismo é reconhecimento da pluralidade e mutabilidade de valores, mas não implica a sua igualdade. A igreja católica romana, hoje, é relativista: sustenta que há muitas vias de se chegar a Deus (protestantismo, islamismo, budismo, hinduísmo, taoísmo, animismo, etc) - isto é o relativismo - mas considera que a preferível, a melhor, é a visão e o ritual católico (a contemplação da paixão de Cristo, a mensagem dos Evangelhos, a missa e outros sacramentos) - isto é dogmatismo diferencial, adicionado ao relativismo.

Também a teoria de Nietschze é um relativismo diferencial: este pensador alemão sustenta que a moral varia de classe a classe social, existe a moral dos aristocratas (divertir-se, fazer a guerra e esmagar o povo, sem reconhecer os «direitos humanos universais») e a moral da plebe (revoltar-se contra os senhores, instaurar a democracia, o socialismo ou o anarquismo).

Nietzsche reconhece o eterno retorno entre estas duas morais - ora predomina uma, ora predomina a outra- mas de nenhum modo as iguala em valor axiológico: a «verdadeira», para ele, é a moral dos aristocratas greco-romanos antigos, a «falsa» , para ele, é a dos liberais burgueses do século XIX, a dos cristãos em geral e a do budismo com a filosofia da compaixão universal, a dos socialistas, anarquistas e comunistas.

O relativismo de Nietzsche não é atravessado por esse sopro de dúvida universal (cepticismo absoluto) que anula toda a certeza no plano ético. Dir-se-á que se trata de uma moral absolutista, que exclui todo o relativismo porque o «bem» é sempre o mesmo, a vontade de poder dos aristocratas, semi-deuses que fazem a sua lei. É verdade. Mas como Nietzshze inverte gnosiologicamente os valores a sua história da moral é relativista e a sua posição moral é absolutista, aristocrática e antiliberal.

duas vias de relativismo moral: o dogmático («Há muitas interpretações sobre o bem e o mal, mas uma ou algumas são preferíveis às outras) e o céptico («Há muitas interpretações sobre o bem e o mal, é impossível hierarquizá-las, valem todas o mesmo»). Luís Rodrigues, tal como Simon Blackburn e tantos outros, só consegue conceber o relativismo céptico ou adicionado de cepticismo.

O SUBJECTIVISMO ÉTICO NÃO É AUTO-REFUTANTE

«O subjectivismo moral nega que haja verdades objectivas e absolutas em ética. Nenhum princípio ético é verdadeiro para todas as pessoas e em todos os lugares. Contudo, os subjectivistas pensam que a sua teoria é a verdade que vale para todas as pessoas em todos os tempos e em todos os lugares. Transformam uma posição relativista em verdade absoluta, o que é contraditório.»

(Luís Rodrigues, ibid, pag 140)

Luís Rodrigues deforma o conteúdo do subjectivismo. A fim de atacar esta corrente, transforma-a numa espécie de objectivismo de múltiplas facetas, tantas quantas as pessoas que pensam e sentem e atribui a cada uma o mesmo valor. É um erro crasso afirmar que «os subjectivistas pensam que a sua teoria é a verdade que vale para todas as pessoas em todos os tempos e em todos os lugares».

De facto, as coisas não se passam assim: cada subjectivista não pensa que o subjectivismo dos outros é tão verdadeiro como o seu, como sugere Luís Rodrigues. Por definição, no subjectivismo a verdade é íntima a cada um e não é comunicável a outros, universalizável. Exemplo: um subjectivista julga que Deus se lhe manifesta através do número de nuvens e da forma destas que, em cada manhã, vê no céu, mas não tem a pretensão que outros o acompanhem nesta crença nem dá igual valor às crenças dos outros. Logo, o subjectivismo ético não se auto-refuta. Não se contradiz pelo facto de admitir que cada um tem uma interpretação singular da sua «verdade» (perspectivismo), uma vez que só é verdadeiro, com segurança, aquilo que eu penso e sinto. É, de facto, irrefutável.


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