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Tratamento clínico do glaucoma em um hospital universitário: custo mensal e impacto na renda familia (página 2)

Edméa Rita Temporini

 

4. Resultados

Foram entrevistados 146 pacientes durante o período estabelecido. A idade média foi de 63,36 ± 15,78 anos (variando de 11 a 91 anos), sendo 47,3% do sexo masculino e 52,7% do sexo feminino. Entre os 146 pacientes, 27,4% referiam ser analfabetos, 55,5% referiam ter cursado o primeiro grau incompleto, e 17,1% haviam completado o primeiro grau. Apenas 16,4% exerciam atividade profissional. Os demais entrevistados (83,6%) eram, em sua maioria, aposentados (52,1%) (Tabela 1).

A renda individual média foi de 212,15 ± 230,15 reais (variando de zero a 1050,00 reais) enquanto a renda familiar média alcançou 373,23 ± 283,07 reais (variando de 120,00 a 1380,00). A maioria dos pacientes apresentava renda familiar nas faixas de até 130 reais (35,6%) e de 300 a 650 reais (30,8%) (Tabela 2). Em 84 casos (57,5%), apenas o paciente trabalhava, enquanto em 62 (42,5%) a renda familiar era completada por uma pessoa (n=51; 34,93%), por duas pessoas (n=9; 6,16%), e por 4 ou 5 pessoas (n=1; 0,68%). Os membros da família que participavam da renda familiar incluíam o filho (n=29) o cônjuge (n=33), o irmão (n=1) e outros parentes (n=5).

Recebiam auxílio no tratamento antiglaucomatoso na forma de colírios doados 66 pacientes (45,2%), sendo o hospital universitário o maior fornecedor (89,4 % das vezes). Medicação sistêmica era usada por 57,5% dos sujeitos.

A maioria dos pacientes (75,3%) usava medicação bilateralmente, enquanto 24,7% utilizavam apenas em um dos olhos. Do total de entrevistados, 31,5% utilizavam apenas um colírio (dos quais 80,4% em ambos os olhos), 37,7% utilizavam 2 colírios (67,3% dos quais em ambos os olhos), 21,2% utilizavam 3 colírios (54,8% dos quais em ambos os olhos) e 9,6% utilizavam 4 colírios (dos quais 64,3% em ambos os olhos). Os colírios mais utilizados (em ordem decrescente) foram: b bloqueadores (97,3%), alfa-agonistas (36,3%), inibidores de anidrase carbônica tópicos (34,9%), mióticos (23,3%), derivados de prostaglandina (14,4%) e simpaticomiméticos (2,1%). Os inibidores da anidrase carbônica sistêmicos foram utilizados em 4,1% dos casos. A média de duração do tratamento antiglaucomatoso foi de 54,10 ± 52,95 meses.

O gasto médio mensal com a medicação antiglaucomatosa foi de 36,1± 32,0 reais (variando de 2,1 a 131,9 reais), o que correspondeu, em média a 19,4% da renda individual (variação de 0,4 a 98,1%) e 15,5% da renda familiar (variação de 0,4 a 77,9%). Aproximadamente 24,0% dos entrevistados tiveram 25% ou mais de sua renda familiar comprometida com o custeio do tratamento antiglaucomatoso (Tabela 3). Os colírios recebidos pelos pacientes na forma de doação não foram utilizados para esse cálculo, por se tratar de uma atitude dependente de uma série de variáveis.

Quanto à aquisição de medicamentos, 45,2% dos sujeitos informaram que já haviam deixado de comprar colírio por falta de dinheiro. A média de duração do tratamento antiglaucomatoso foi de 50,1± 47,3 meses para o grupo com dificuldade de compra da medicação, e de 57,2 ± 57,0 meses para o grupo sem dificuldade de compra da medicação (p=0,4499).

Utilizando-se o Teste de Mann-Whitney, observou-se que as rendas médias individual e familiar dos indivíduos que relataram dificuldade de compra da medicação eram significativamente mais baixas que a renda dos indivíduos que não tiveram dificuldade na compra de medicações (p=0,0121 para renda individual e p=0,0001 para renda familiar). Quando se comparou a dificuldade de compra da medicação e a porcentagem da renda empregada na sua compra, observou-se que as porcentagens das rendas individual e familiar utilizadas para custear o tratamento eram significativamente maiores no grupo que teve dificuldade para comprar as medicações (p=0,0167 para renda individual e p=0,0002 para porcentagem da renda familiar) (Tabela 4). Entretanto, as variáveis idade, custo do colírio e número de colírios utilizados não apresentaram associação estatisticamente significante com dificuldade de compra de medicação (Tabelas 4 e 5). As variáveis categóricas sexo, escolaridade e exercício de atividade profissional também não apresentaram diferença estatisticamente significante entre os grupos (p=0,32, p=0,61 e p=0,26, respectivamente) (Tabela 5).

 

 

 

5. Discussão

A dificuldade de adesão de pacientes ao tratamento antiglaucomatoso pode levar à perda de campo visual, sendo a maior causa responsável pela cegueira secundária a esta moléstia(7). Vários fatores estão envolvidos na aderência do paciente ao tratamento, entre eles o custo da medicação. Em estudo realizado anteriormente, 21% dos indivíduos entrevistados revelaram que abandonaram o tratamento em algum momento(5). A falta de dinheiro foi a principal causa da inter-rupção do tratamento (47,6%), situando-se à frente de outros fatores, como os efeitos colaterais provocados pelas medicações (38,1%), e a ausência de melhora da função visual (9,6%). Em um outro estudo, 481 pacientes com glaucoma foram entrevistados no decorrer de um ano para avaliar as características dos pacientes que seguiam corretamente o tratamento. Desses, 76 referiam uso irregular da medicação devido ao esquecimento por parte do paciente (40%), aos efeitos colaterais da medicação (17,3%) e à falta de condições econômicas para comprá-la (7%)(6). Entretanto, esses valores são referentes apenas ao dia da consulta, não refletindo a verdadeira influência da falta de dinheiro ao longo de todo o período do tratamento.

Por meio da medida do volume da gota, do volume do frasco, da posologia sugerida na bula e do preço do medicamento, o custo mensal da maioria das medicações utilizadas no tratamento antiglaucomatoso no Brasil foi determinado(4). A partir desses dados acrescendo-se o tipo de medicação e a freqüência de seu uso, obtidos no questionário, foi possível calcular o custo mensal do tratamento anti-glaucomatoso entre pacientes atendidos pelo Setor de Glaucoma. O valor médio do custo mensal do tratamento foi de 36,1 reais, o que representava 26,4% do salário mínimo vigente no país à época da investigação. Outros autores(8) procuraram calcular o custo anual do tratamento do glaucoma, incluindo gastos com transporte e o tempo diário despendido por cada paciente em dia de consulta, subdividindo-os em dois grupos: os previamente submetidos à cirurgia (n=19), e os não operados (n=75). Os autores concluíram que o grupo cirúrgico apresentava gasto superior (806,26 ± 598,28 reais) ao grupo não operado (581,59 ± 592,17 reais) (p=0,012)(8). Entretanto, a metodologia empregada para avaliar o custo do tratamento se baseou no custo do frasco e não no custo real, que leva em consideração o volume da gota, e a posologia empregada. Por outro lado, apesar da cirurgia precoce estar associada a gastos maiores no primeiro ano, nos anos subseqüentes esses valores diminuem, tornando-se uma alternativa mais econômica do que apenas o tratamento clínico em pacientes com glaucoma primário de ângulo aberto(3).

Outros fatores não avaliados pelo presente estudo influenciam diretamente na análise do custo do tratamento antiglaucomatoso para o paciente. Muitas vezes, o paciente desperdiça o colírio instilando-o de forma inapropriada(9). Em análise anterior, foi constatado que 18% dos pacientes instilavam duas ou mais gotas do colírio, 24% o faziam no canto nasal, e muitas vezes com o olho fechado(5). Verificou-se ainda, que apenas 2% dos pacientes ocluíam o ponto lacrimal no momento da instilação do colírio. Por fim, é importante salientar que a mudança freqüente dos colírios empregados no tratamento do glaucoma(10) está associada a custos mais elevados para o paciente.

A renda familiar média dos pacientes envolvidos neste estudo correspondeu a pouco menos de 3 vezes o salário mínimo vigente na época. A prevalência de falha no uso da medicação por motivos econômicos foi elevada (45,2%), e aparentemente está relacionada à baixa renda familiar e a elevada porcentagem desta empregada na compra das medicações (em média 15,5%).

Vale a pena lembrar que os pacientes glaucomatosos são, em sua maioria, pessoas idosas. No presente estudo, expressiva proporção de pacientes fazia uso regular de medicação sistêmica (57,5%) o que onera ainda mais o cuidado com sua saúde.

Ressalta-se ainda, que a indicação de cirurgias antiglaucomatosas pode ocorrer precocemente devido à falta de adesão ao tratamento por razões econômicas. Outras formas de doação de medicamento, promovidas por serviços públicos de saúde - universitários ou governamentais - poderiam reduzir a possibilidade de abandono do tratamento por falta de condições econômicas.

O glaucoma é uma doença crônica, assintomática na maioria dos casos, onde o paciente não percebe nenhum benefício ao utilizar medicamentos, apenas sofre com seus efeitos colaterais e compromete parte de sua renda familiar no tratamento. O presente estudo revelou que o tratamento do glaucoma mostrou-se associado a um custo elevado em relação à renda familiar da população que freqüentam um serviço público. Estes dados sugerem que pacientes de baixa renda, e que destinam maior proporção de sua renda ao tratamento, podem apresentar maior risco de baixa fidelidade por impossibilidade de aquisição do medicamento. Portanto, para estimular o paciente a usar colírios de forma correta, além de informá-lo sobre o que é o glaucoma, é imprescindível que medicações de baixo custo e efeitos colaterais menores também sejam desenvolvidas.

6. Abstract

Purpose: To verify the social characteristics and the impact of glaucoma treatment on the familial income of patients followed at a university hospital. Methods: One hundred and forty six glaucomatous patients were interviewed at the Hospital das Clínicas da Universidade de Campinas to evaluate their social economic profile. The questionnaire investigated the occupation, the individual and familial income, as well as the type and frequency of the antiglaucomatous drugs used by each patient. Knowing the monthly cost of antiglaucomatous drugs available in Brazil, we were able to calculate the monthly cost of glaucoma treatment and the percentage of committed familial income. Results: The mean monthly cost of glaucoma treatment was 36.09 ± 31.99 reais, which corresponded to 15.5% of the familial income. Thirty-six (24%) patients had 25 percent or more of the familial income spent on their treatment. Sixty-six (45.2%) patients had difficulty in buying their medications. Factors associated with this difficulty included low familial income (p=0.0001), and high percentage of the income used to buy the drugs (p=0.0002). Conclusion: The cost of glaucoma treatment is high compared to the income of patients treated at a public institution. This population has a low familial income, of which a high percentage is required to acquire antiglaucoma medications. We suggest that these patients may be at risk for low compliance due to economical limitations.

Keywords: Glaucoma; Health care costs

7. Referências

1. Wilenski JT. The role of brimonidine in the treatment of open angle glaucoma. Surv Ophthalmol 1996;41:S3-7.

2. Wilson MR, Martone JF. Epidemiology of chronic open angle glaucoma. In: Ritch R, Shields MB, Krupin T: The Glaucomas. 3rd ed. St. Louis: Mosby; 1996. p.407-45.

3. Ainsworth JR, Jay JL. Costs analysis of early trabeculectomy versus conventional management in primary open angle glaucoma. Eye 1991;5(Pt3):322-8.

4. Amaral JMF, Moreira RAR, Silva LMS, Vasconcellos JP, Rocha EM, Costa VP, Kara-José N. Custo mensal das medicações anti-glaucomatosas no Brasil. Arq Bras Oftalmol 1999;62:123-6.         [ Lilacs ]

5. Costa VP, Vasconcellos JP, Pelegrino M, Kara-José N. O que os pacientes sabem sobre glaucoma? Arq Bras Oftalmol 1995;58:36-41.         [ Lilacs ]

6. Yasuoka ER, Mello PAA. Quem segue corretamente o tratamento clínico do glaucoma? Arq Bras Oftalmol 1996;59:325-8.

7. Goldberg I. Compliance. In: Ritch R, Shields MB, Krupin T. The Glaucomas. St Louis: Mosby-Year Book; 1996. p.1375-84.

8. Pedroso L, Carvalho Júnior ES, Paranhos Júnior A, Prata Júnior JA, Mello PAA. Custo real do tratamento do glaucoma para o paciente. Arq Bras Oftalmol 1999;62:677-82.         [ Lilacs ]

9. Costa VP, Vasconcellos JP, Pelegrino M, Kara-José N. Análise da técnica de instilação do colírio em pacientes glaucomatosos. Rev Bras Oftalmol 1995;54:523-8.

10. Kobelt G, Jünsson L, Gerdtham U, Krieglstein GK. Direct costs of glaucoma management following initiation of medical therapy. A simulation model based on an observacional study of glaucoma treatment in Germany. Graefes Arch Clin Exp Ophthalmol 1998;236:811-21.         [ Medline ]

 

 

ANEXO

QUESTIONÁRIO COMPLETO

1) Sexo;

2) Idade em anos completos;

3) Grau de escolaridade: O sr.(a) já estudou? Se sim: até que série o sr.(a) completou? A: nunca estudou, B: sabe apenas assinar o nome, C: pré-escolar, D: 1º grau incompleto, D1: 1ª série, D2: 2ª série, D3: 3ª série, D4: 4ª série, E: 1º grau completo, F: 2º grau incompleto F1: 1º ano, F2: 2º ano, F3: 3º ano, G: superior incompleto, H: superior completo, I: profissionalizante;

4) Atualmente, o sr.(a) trabalha e recebe algum pagamento pelo seu trabalho? S/N;

5) Se recebe, quanto em reais o sr.(a) ganha por mês?;

6) Em que o sr.(a) trabalha atualmente?;

7) Na sua casa, além do sr.(a), mais alguém trabalha e ajuda nas despesas do mês? S/N;

8) Quantas pessoas e quem são elas? A: filho, B: esposa(o), C: irmão(ã), D: outro(s) parente(s), E: outra(s) pessoa(s);

9) Quanto recebe cada uma dessas pessoas por mês?;

10) O sr.(a) recebe algum colírio sem custo para o tratamento do glaucoma? S/N;

11) Quem lhe dá colírios para o tratamento do glaucoma? A: UNICAMP (colírio doado), B: Prefeitura de sua cidade (colírio recebido), C: Posto de Saúde (colírio recebido), D: outro tipo de ajuda;

12) Em qual olho o sr.(a) pinga colírio;

13) No olho direito, quantos colírios o sr.(a) pinga?;

14) No olho esquerdo, quantos colírios o sr.(a) pinga?;

15) No olho direito, quais os colírios que o sr.(a) pinga, e quantas vezes por dia cada um? 1: Timoptol, 2: Timolol, 3: Glautimol, 4: Timoptol XE, 5: Betagan, 6: Betoptic, 7: Betoptic S, 8: Pilocarpine, 9: Isoptocarpina, 10: Propine, 11: Iopidine, 12: Alphagan, 13: Diamox, 14: Trusopt, 15: Xalatan;

16) Pergunta igual à questão anterior para o olho esquerdo;

17) Há quanto tempo o sr.(a) faz tratamento para o glaucoma no olho direito?;

18) Pergunta igual à questão anterior para o olho esquerdo;

19) O sr.(a) deixou de comprar colírios para o tratamento do glaucoma ? S/N;

20) Fora os colírios do glaucoma, o sr.(a) usa algum outro tipo de colírio?;

21) Qual é o(s) outro(s) colírio(s)?;

22) O sr.(a) usa algum tipo de medicação sistêmica (tomando pela boca)? S/N;

23) Qual é essa medicação?

Leopoldo Magacho dos Santos Silva1, José P. C. de Vasconcellos2, Edméa Rita Temporini3, Vital Paulino Costa4, Newton Kara-José5 - ertempor[arroba]usp.br

Estudo realizado no Setor de Glaucoma do Departamento de Otorrino-Oftalmologia da Universidade Estadual de Campinas (UNICAMP).

1 Médico Assistente do Centro de Referência em Oftalmologia da Universidade Federal de Goiás-GO. Pós-Graduando em Oftalmologia, Universidade Estadual de Campinas.

2 Médico Assistente do Setor de Glaucoma do Departamento de Oftalmologia da Universidade Estadual de Campinas.

3 Professora Associada da Faculdade de Saúde Pública da Universidade de São Paulo (USP) e Assessora de Pesquisa do Departamento de Oftalmologia da Universidade Estadual de Campinas.

4 Chefe do Setor de Glaucoma do Departamento de Oftalmologia da Universidade Estadual de Campinas e Médico Assistente do Departamento de Oftalmologia da Universidade de São Paulo.

5 Professor Titular do Departamento de Oftalmologia da Universidade Estadual de Campinas e Professor Titular do Departamento de Oftalmologia da Universidade de São Paulo.



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