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Meninos são uma catástrofe na escola (página 2)

Mareli Eliane Graupe

Essas características, entre outras, são conhecidas como estereótipos para cada sexo. Nesse caso, qual é a função da escola? Como a escola deve trabalhar essas diferenças entre os sexos? Será que uma quota de professores resolverá esses problemas?

Conforme os resultados do PISA-Student[8], os meninos apresentam dificuldades escolares, problemas de comportamento social e, muitas vezes, os professores, principalmente as professoras, não contribuem para amenizar essas questões. Por isso, entre outros motivos, começou-se a discutir a temática "Relações de Gênero" com mais freqüência nas políticas públicas de educação na Alemanha. Mas, o que significa gênero neste contexto? Gênero é um conjunto de expressões sobre aquilo que se pensa do masculino e do feminino.

Em outras palavras, a sociedade constrói significados, símbolos, características para definir cada um dos sexos. A essa construção social dá-se o nome de relações de gênero. Resultante da forma de percepção de gênero masculino e feminino pela sociedade, criam-se perspectivas específicas para homens e para mulheres. A autora americana Joan Scott explica que gênero se refere ao discurso da diferença dos sexos, isto é, "ele não se relaciona simplesmente às idéias, mas também às instituições, às estruturas, às práticas cotidianas como os rituais, e tudo o que constitui as relações sociais" (SCOTT, 1998, p. 15).

A discussão sobre "gênero e escola" já existe na Alemanha desde o início da década de 1980 e agora este tema retornou, com um novo enfoque. Primeiramente, ressaltava-se que as moças eram prejudicadas na educação escolar, e atualmente, as relações de gênero na escola, são discutidas na perspectiva de alertar que a escola não está cumprindo o seu papel de promover e incentivar o processo de ensino e aprendizagem de meninas e meninos.

É importante também ressaltar que os garotos não devem ser considerados como perdedores ou vítimas do feminismo. Mas, que a perspectiva de gênero dever ser trabalhada na escola para incentivar os direitos iguais de desenvolvimento e sucesso escolar de ambos os sexos. Para que isso aconteça, é necessário que toda a comunidade, os pais, os professores e os/as alunos/as participem efetivamente dessa proposta – "Educação de qualidade para sexos diferentes".

Possivelmente, muitos/as professores/as ainda trabalham as questões de gênero, isto é, a construção social sobre as diferenças existentes entre alunos/as, segundo os velhos estereótipos (guris são agressivos, inquietos, bons alunos em matemática, as garotas são meigas, etc.) ou ainda trabalham com os meninos e as meninas como se elas/eles fossem iguais (perspectiva neutra).

Nos últimos dois anos há uma intensa discussão sobre "geschlechtergerechte Schule"[9], principalmente, depois que PISA-Student constatou que as escolas alemãs não oferecem boas oportunidades para guris e gurias. Uma escola co-educativa precisa oferecer diferentes atividades, diferentes motivações para ambos os sexos, como por exemplo, as meninas devem ser estimuladas para as áreas técnicas e os meninos para as áreas sociais.

Também, deve questionar como os papéis femininos e masculinos são representados nos livros didáticos, nas histórias infantis. Se a escola não considerar e questionar esses aspectos ela não pode ser chamada de escola co-educativa, mas somente de escola mista.

Na Alemanha, vários professores estão abrindo as portas das suas salas de aula para especialistas educacionais investigarem "qual é a melhor forma de educar meninos e meninas promovendo o desenvolvimento pleno de ambos os sexos". Isso está acontecendo devido o intenso questionamento de intelectuais e a importância que esse tema sobre "gesclechtergerechte Schule" adquiriu na sociedade alemã.

A relevância da discussão sobre o pleno desenvolvimento das/os alunas/os na escola é mais importante do que aparenta ser, pois se não tivermos professoras/es capacitadas/os para trabalharem com a educação de meninos e meninas, provavelmente voltaremos a ter a monoeducação. Sem esquecer que na Alemanha, ainda existe monoeducação, isto é, escolas separadas para garotos e para garotas. Outros países, como por exemplo, os Estados Unidos estão aumentando o número de escolas monoeducativas: em 1995 havia apenas três escolas, mas, a partir de novembro de 2006, há 241 instituições públicas.[10]

Na Alemanha há um grupo de especialistas que defendem a monoeducação e, argumentam através de pesquisas de campo que, "as meninas possuem mais interesse e melhores notas nas áreas técnicas, quando elas estão em grupos homogêneos. Os guris possuem melhores capacidades de concentração e de aprendizagem nas escolas monoeducativas" (KESSEL, 2002, p. 113-150). Algumas revistas femininas, como por exemplo, a "Ema" já questionava em 1981 se a co-educação produz o sucesso ou o fracasso das/os alunas/os (Macht koedukation dunn?).

A co-educação (ou melhor, escola mista)[11] apresenta vários problemas. Mas, por outro lado, a monoeducação não é uma solução para os problemas do fracasso dos guris na escola, pois, homens e mulheres não vivem em sociedades separadas. Por que teremos que educar meninos e meninas em escolas monoeducativas?

Algumas escolas co-educativas alemãs já oferecem algumas disciplinas, como as técnicas, para grupos separados segundo o sexo. Como por exemplo, as meninas terão aula de matemática, sem a presença de meninos na sala e, vice-versa.

A autora Hannelore Faulstich-Wieland alerta para a importância e a necessidade de estudos e discussões sobre "geschlechtergerechte Schule", isto é, uma escola com direitos iguais de promoção para alunas/os. Segundo a autora, "uma "geschlechtergerechte Schule" deve reconhecer e promover o sucesso integral de cada criança, questionando os estereótipos que são considerados como típicos e normais para cada sexo".

Mas, será que os profissionais da educação estão preparados para educar e promover, ao mesmo tempo, o sucesso de meninas e meninos? Não estão, mas a sociedade alemã já está integrando com muita ênfase a temática de gênero nos cursos superiores e investindo em pesquisas de campo nas escolas. Algumas entidades estaduais estão realizando projetos educacionais que abordam essa problemática.

Também é importante questionar se o sistema de quotas será uma solução para o aumento do número de professores no magistério. Será que os homens possuem interesse em atuar nesta área? A área educacional enfrenta ultimamente um certo desprestígio social e desvalorização salarial. Esse processo não é tão efetivo na Alemanha como no Brasil, pois um professor, que trabalha nos anos inicias do Ensino

Fundamental nas escolas alemãs, recebe em torno de á,¬ 2.800,00 (= 6.999,00 reais) podendo chegar até á,¬ 5.000,00, dependendo do nível de qualificação, tempo de serviço e função que atua na escola. Com este salário uma família consegue viver bem na Alemanha e, segundo a pesquisa feita pela OECD[12], os professores alemães recebem um bom salário em relação aos engenheiros, aos bancários e os médicos, que não ganham muito mais que um professor.

As escolas não podem esperar até que 50% das vagas sejam compostas por professores homens. Elas precisam pensar numa estratégia para promover o sucesso não somente das meninas, mas também dos meninos no processo escolar. Pois, se atualmente as moças representam a maior quota de sucesso no ensino, isso ainda não significa que elas alcançaram os altos cargos nas empresas, nas áreas técnicas, na política. Não se pode esquecer que ainda há muitas profissões predominadas pelos homens.

Enfim, uma quota de professores homens na educação não vai resolver o problema do fracasso de rapazes na escola e nem estimular que as garotas escolham profissões vistas como "masculinas" ou que aprendam a almejar altos cargos.

Pois, mulheres como homens podem transmitir e re-construir com seus/suas alunos/as significados e valores sobre os papéis considerados como masculinos e femininos na sociedade. É necessária, sim, uma educação que invista no desenvolvimento de cidadãos "homens e mulheres", livres de estereótipos apropriados para cada sexo e que enfatize os princípios de competência, responsabilidade, ética, cidadania e respeito a si mesmo, aos outros e ao universo.

Referências

AUAD, Daniela. Educar meninas e meninos: relações de gênero na escola. São Paulo: Contexto, 2006.

BEUSTER, Frank. Die Jungenkatastrophe: das überforderte Geschlecht. Hamburg: Rowohlt, 2006.

Bildungsstatistik: www.lds.nrw.de/statistik/datenagebote/analysen/land, 19.05.2008.

Benachteiligung von Jungen, In: www.fraktion.gruene-niedersachsen.de/cms  08.06.2008.

DIEFENBACH, H./ KLEIN, M. " Bringing Black", soziale Ungleichheit zwischen den Geschlechtern im Bildungssystem zuungusten von Jungen am Beispiel der Sekundarabschlüsse, In: Zeitschrift für Pädagogik, 2002/6, p. 938-958.

Http://www.vev.ch/lit/behavor.htm/, 19.05.08.

Http://www.fraktion.gruene-niedersachsen.de/, 06.06.2008.

KESSELS, Ursula. Undoing gender in der Schule: eine empirische Studie über Koedukation und Geschlechtsidentität im Physikunterricht. München: Juventa, 2002.

KLEFF, Sanem. Von der Gewerkschaft Erziehung und Wissenschaft: Quotenmänner für die Erziehung. In: Http://gruene-berlin.de/positionen/stach_arg/135/135-gespraech.htm, 19.05.08.

SCOTT, Joan. La citoyenne paradoxale. Les féministes françaises et les droits de l" homme. Paris: Albin Michel, 1998.

 

Monografias.com

[1] Informações em: BEUSTER, 2006.

[2] In: Bildungsstatistik: www.lds.nrw.de/statistik/datenagebote/analysen/land, 19.05.2008

[3] Sanem Kleff von der Gewerkschaft Erziehung und Wissenschaft: Quotenmänner für die Erziehung. In: http://gruene-berlin.de/positionen/stach_arg/135/135-gespraech.htm, 19.05.08.

[4] http://www.vev.ch/lit/behavor.htm, 19.05.08.

[5] Dados über die Benachteiligung von Jungen: http://www.fraktion.gruene-niedersachsen.de/cms, 08.06.2008.

[6] In Bildungsstatistik: www.lds.nrw.de/statistik/datenagebote/analysen/land, 19.05.2008.

[7] In: http://www.fraktion.gruene-niedersachsen.de/, 06.06.2008.

[8] Das Program for International Student Assessment (PISA) der OECD possui como objetivo avaliar a qualidade da educação que é oferecida nas escolas dos países participantes da OECD - Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico.

[9] Escola com direitos iguais para sexos diferentes

[10] In: http://wireltern.eu/index.php?q=node/491, 18.05.08.

[11] Conceitos sobre escola mista e co-educação ver: AUAD, 2006.

[12] OECD significa Organização para a cooperação e o desenvolvimento econômico.

 

Autor:

Mareli Eliane Graupe

Doutoranda em Educação na Universidade de Osnabrueck – Alemanha.

mareligraupe[arroba]hotmail.com

Em Revista Espaço Acadêmico Nº 86, Julho de 2008



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